Quando alguém fala de trabalho, volta à minha memória uma sala do colegial. O professor entrou seguro de si e afirmou: “O homem não gosta de trabalhar, porque o trabalho é consequência do pecado. Trabalhar é ruim.” Aquilo desceu atravessado. Antes que o silêncio virasse concordância, eu levantei a mão. Disse que não concordava. Ele apelou às credenciais; eu respondi com respeito: formação nenhuma muda o que a própria Bíblia declara. Quando Deus criou o ser humano, o colocou na terra e disse: “Sujeitai e dominai.” Isso é trabalho. E Jesus afirmou: “Meu Pai trabalha até agora, e eu também.”

O pecado não inventou o trabalho; o pecado trouxe a dificuldade de realizá-lo. Trouxe dor, resistência, dureza no caminho. À mulher, a dor no parto. À serpente, a maldição de rastejar. Adolescente que eu era, eu chegava a imaginar aquela serpente como um “dragão chinês” com pernas, e depois, por causa da queda, condenada ao chão. Não passo de uma imagem, mas ela me lembrava isto: foi o pecado que deformou o que Deus fez bom; não o trabalho em si.
Por isso afirmo sem medo: trabalho não é castigo; trabalho é bem. Quem quer conforto, trabalhe. Quer um teto que não pingue sobre a cabeça? Faça um telhado bem-feito. Quer comer com fartura? Trabalhe para pôr alimento sobre a mesa. O resultado financeiro não nasce de atalho, mas de serviço, constância e honestidade. É o contraponto que a vida nos impõe.
O mesmo vale para a saúde. Muita gente diz que está cuidando da saúde enquanto gasta com remédios. Mas isso, na verdade, é cuidar da doença para que não piore. Cuidar da saúde é comer direito, movimentar o corpo, preparar-se para não adoecer. Outro contraponto claro: esforço antes, colheita depois.
A sabedoria de Salomão sempre me cutuca com perguntas simples e decisivas: O que eu quero para a minha vida? De onde estou, qual é o meu sonho? Talvez seja dar estudo aos filhos. Talvez eu diga que não quero família porque, no mundo de hoje, dá trabalho demais. Está bem: já disse o que não quero. Mas o que eu quero? E o meu sonho vai parar na porta do cemitério? Ele vai passar para o outro lado?
Essa pergunta me desarma. Porque, debaixo do sol, até o trabalho mais honesto termina no túmulo se não estiver iluminado pela eternidade. Deus criou o trabalho antes do pecado para que, por meio dele, eu refletisse Seu caráter: Aquele que cuida, serve e faz o bem. E, em Cristo, aquilo que a queda tornou pesado encontra resposta: não o fim do trabalho, mas novo sentido e graça no meio do suor.
No fim, não é sobre mim. Não é sobre você me conhecer. Em Jesus Cristo, o labor volta a ser chamado e não maldição; serviço que abençoa a casa, cuida da cidade e prepara o coração para aquilo que não termina no portão do cemitério. E é por isso que, quando ergo as mãos para trabalhar, lembro: meu Pai trabalha até agora; eu também.
