Guardo comigo uma história simples que veio da África: colocaram um pacote de balas como prêmio e alinharam crianças para correr. "Quem chegar primeiro leva tudo", disseram. Mas elas se deram as mãos e atravessaram a linha juntas. Quando perguntaram por quê, responderam com pureza: "Que graça teria se só um ganhasse?". Ouvi ainda outro relato: durante uma corrida, uma criança caiu e chorou; as outras voltaram, a ergueram e, de mãos dadas, cruzaram juntas a chegada. Aquilo me alcança como um sopro do céu.

Essas cenas me desarmam, porque nelas não há perdedores. Há momentos na família e na vida em que dá, sim, para todo mundo ganhar. Talvez cada um ganhe um pouco menos, mas todos participam da alegria. Até nas coisas simples: vamos fazer um churrasco? Por que um só precisa arcar com tudo? Não dá para juntar e dividir? Por que alguém tem de suportar sozinho o peso e a despesa? O amor me chama para o caminho do "ganha-ganha".
Quando olho para o Evangelho, ouço o Senhor me ensinando: não é para tomar o que é do outro; eu tenho o que é meu. Em vez de tirar, abençoo. Se pego emprestado, devolvo a vasilha cheia. E, sobretudo, aprendo a falar com uma palavra branda. Muitas vezes, não é só o que digo, mas tempo e modo: talvez não seja a hora, talvez a forma não seja a melhor. Tempo e modo — duas chaves que o Espírito Santo coloca nas minhas mãos.
Mas eu sei como resisto: quero ter razão, quero vencer, quero aparecer. E, assim, não dou espaço ao Espírito nem à Palavra. Nas manhãs em que me detenho para estudar a Escritura, sou lembrado e corrigido; quando não, escorrego fácil para o espírito deste mundo. A vida não é sobre competir, nem sobre "pregações bonitas" ou exibição. É sobre Jesus Cristo, inocente, que pagou por todos os nossos pecados, e nos mostrou um novo jeito de caminhar: de mãos dadas, levantando os que caem, repartindo o que temos.
Hoje escolho esse caminho. Quero cruzar a linha com os meus, e não às custas deles. Quero que a minha palavra seja suave, que o meu coração seja generoso, que o meu gesto devolva cheio o que recebeu vazio. Peço ao Senhor discernimento de tempo e modo e, sobretudo, um amor que não calcula vantagem. Se eu me rendo a Cristo, a corrida muda: Ele já venceu por nós; nEle, podemos avançar juntos, como aquelas crianças, até a alegria da chegada.
